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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Entrevista - Sonia Kramer

Realizada em: 6/11/2006
Atuação: Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio.
Obras: Profissionais de Educação Infantil: gestão e formação. São Paulo: Ática, 2005; História de professores. São Paulo: Ática, 1996; Por entre as pedras: arma e sonho na escola. São Paulo: Ática, 1993; Com a pré-escola nas mãos: uma alternativa curricular para a educação infantil. São Paulo: Ática, 1993.


Cotidiano e Educação Infantil


Salto – Gostaríamos de que você falasse um pouco a respeito do curso de formação de professores, da PUC/RJ para a área específica de Educação Infantil. Qual é a proposta desse curso? Quais os seus fundamentos?

Sonia Kramer – A gente começou esse curso primeiro com a certeza de que formação é um direito. Formação é um direito de todos os professores, e a área da Educação Infantil, ela tradicionalmente não tinha formação, não tinha formação específica para os professores que trabalham com a criança pequena. Em 1994, quando nós começamos esse curso de especialização em Educação Infantil aqui na PUC, a gente estava acompanhando e, inclusive, participando do processo da Constituinte, a primeira vez que no Brasil se reconhece o direito de todas as crianças a creches e pré-escolas. E a gente sabia da tramitação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, que acabou sendo aprovada em 1996. Então, nós sabíamos de uma demanda reprimida, e de que era necessária uma formação dos profissionais de Educação Infantil. A proposta, desde a criação – o curso fez 10 anos o ano passado – a proposta é instrumentalizar os profissionais da Educação Infantil, dar o que a gente chama de fundamentos teórico-práticos. Ou seja, a gente considera que tanto a teoria é importante, como é importante a reflexão sobre as práticas desses professores. E a maioria dos nossos alunos, até hoje – eu depois vou falar sobre a formação dos professores propriamente dita – são coordenadores, diretores, supervisores, ou seja, eles têm uma atuação também como formadores dos seus próprios professores, em creches, pré-escolas e escolas que tenham turmas de Educação Infantil. E a gente tem também, hoje, uma gama muito variada de profissionais de outras áreas, que atuam com a criança pequena. Isso dá uma riqueza muito grande ao nosso curso, ele é procurado por médicos, enfermeiras que se dedicam ao período neonatal, advogados, arquitetos, dentistas que trabalham com prevenção em crianças, pessoas da área de artes ou de mídia, que lidam com a criança pequena. O meu sentimento e o que a gente tem aprendido, ao longo desses 10 anos, é que a gente lida, na verdade, com uma visão de infância, quer dizer, a proposta, fundamentalmente, é trabalhar com uma concepção de criança como cidadã, criança que é sujeito social, sujeito de direitos, a criança que é produtora de cultura, além de estar inserida numa cultura que interfere nela, que a influencia... Mas ela também produz cultura e, como tal, os profissionais que lidam com essa criança precisam também ser considerados cidadãos, e por isso eu falei da formação como um direito. 
Então, a proposta do curso é trabalhar numa perspectiva sociocultural, numa perspectiva sócio-histórica, e numa perspectiva que considera as trajetórias de vida de crianças, e de adultos, no caso as pessoas que trabalham com as crianças.

Salto – Qual a importância da formação em nível superior para os professores de Educação Infantil, tanto na formação inicial quanto na continuada? E o que muda nos trabalhos nas escolas?

Sonia Kramer – Bem, eu vou falar um pouco do currículo e das práticas. O currículo a gente pensou, idealizou, eu diria assim, os dois alicerces que sustentam o curso, que são: de um lado a criança e o conhecimento da criança, e as políticas, ou as políticas públicas direcionadas à população da idade de 0 a 6 anos. Eu posso falar disso depois, a gente até tem um entendimento um pouco mais largo dessa idade. Que é o entendimento que hoje prevalece. Esses dois alicerces são: de um lado a criança, as teorias do conhecimento da criança (...) que acompanha os três semestres do curso, a primeira é essa disciplina – teorias do conhecimento e a criança de 0 a 6 anos – com os vários enfoques teóricos de caráter cognitivo, afetivo, sociocultural e histórico. Do ponto de vista das políticas, até porque essa é uma área nova, é uma área nova no mundo inteiro, mas especificamente no Brasil, essa é uma área que lutou muito, inclusive para ser reconhecida. A gente, por conta disso, tem também um alicerce importante na questão das políticas, nas políticas de educação para as crianças de 0 a 6 anos, buscando alternativas pedagógicas para Educação Infantil, discutindo as abordagens curriculares, a gente faz análise de currículos ou de propostas pedagógicas das secretarias de educação. 
Então, na concepção do currículo, é necessário pensar a criança e as políticas. Isso vai se desdobrando, como eu mencionei, em várias disciplinas. Do ponto de vista, assim, das práticas, a gente busca, a gente tenta fazer um trabalho de reflexão sobre a própria prática, um trabalho de reflexão em que a escrita tem um papel fundamental. Então, o nosso curso, ele sempre foi um curso que exigiu a produção de um texto escrito, a produção de uma monografia. Hoje isso é obrigatório para todos os cursos de pós-graduação, mas o nosso, mesmo quando não era obrigatório, a gente tinha isso como uma prática constante, porque eu acredito, e o grupo de professores acredita, também, que a escrita, ela é um instrumento fundamental no processo de reflexão sobre a prática, e de sistematização daquilo que é vivido. Não precisaria falar do Paulo Freire, de que a leitura do mundo precede a leitura da palavra, e a própria leitura da palavra vai aprofundando o conhecimento do mundo. Então, a escrita é um desafio importante para nós. Eu digo desafio propositadamente, enfim, porque pensar um currículo em que a escrita tenha um papel importante, claro que é pensar um processo de muito trabalho. Muito trabalho para os professores, para o corpo docente do curso, e muito trabalho para os alunos, porque a gente sabe o quanto a escrita é muitas vezes dolorosa, mas o quanto também ela pode ser prazerosa e produtiva, no sentido da formação. Estou falando aqui do papel da escrita no processo de formação.

Salto – Como a seu ver a questão da faixa etária das crianças, enfim, as diferentes etapas do desenvolvimento infantil, devem estar presentes nos cursos de formação de professores? 

Sonia Kramer – Essa é uma grande discussão na área. Até mesmo quando a gente discutia, na época da LDB, a Educação Infantil em creches e pré-escolas, havia um grupo que preferia, inclusive, que essa denominação não existisse. E a denominação que vigorou e que vigora até hoje, ela exatamente faz essa distinção, creche – pensando criança de 0 a 3 e pré-escola – pensando em instituições destinadas a crianças de 4 a 6. Na realidade, o que você tem mais são turmas de Educação Infantil em escolas. O que é uma coisa muito delicada, por quê? Por que a gente não trabalha com uma proposta que vai dividir pela idade, e o que a gente entende que faz o eixo? Bom, eu vou responder à segunda pergunta. O que faz o eixo é a questão da cultura e a questão da linguagem. A gente não trabalha de forma dividida, porque a gente tenta escapar de uma visão escolarizada da Educação Infantil. Quer dizer, todo esse modelo (...) ele teve um problema com a visão escolarizada, inclusive trabalho com a área de 1ª a 4ª, tenho um entendimento do papel fundamental que você tem de Educação Infantil junto com Educação Fundamental, com Ensino Fundamental. Mas a gente tem, na nossa escola, uma visão muito fragmentada, e a própria psicologia, de tradição desenvolvimentista, que sempre trabalhou com a idéia de: "com 1 ano de idade a criança será capaz de, aos 2 anos a criança será capaz de...". E a pergunta que a gente pode se fazer é de que criança a gente está falando, quando traça um perfil por idade. Se a gente considera a diversidade de contextos culturais das nossas crianças, não só regionais, não só culturais, e também de classe social, isso tudo combinado, numa interessante combinação, o que a gente tem na realidade são alternativas de crescimento, desenvolvimento e interação da criança muito diferenciados. Claro que é diferente falar de um bebê de 6 meses e de uma criança de 5 anos. Isso você tem toda razão. 
O que a gente procura fazer é trabalhar, e aí eu não sei se me fiz entender antes, no que a gente pode conhecer da criança, ou seja, o conhecimento que nós temos da criança, aquilo que a gente pode aprender com as crianças nas interações que ela vai estabelecendo com os seus pares, com os objetos, e com os adultos. Nós não trabalhamos numa visão tão específica, embora a gente tente considerar as especificidades de determinados grupos. Hoje, você tem muitas creches e pré-escolas, inclusive, que trabalham com idade compartilhada. Muito na perspectiva do Vygotsky, que é um psicólogo que já morreu há muito tempo, mas é um psicólogo que tem fundamentado todo esse campo do conhecimento da criança, de como é importante a interação de crianças pequenas com crianças maiores, por tudo aquilo que é possível aprender e se desenvolver a partir dessa troca. A gente tem uma visão de não compartimentalizar por idades ou por turmas. Mas eu acho que é fundamental, sim, eu queria aproveitar a deixa da sua pergunta, para dizer que, do meu ponto de vista, a gente tem (...) não falando só do curso, falando da área da Educação Infantil em geral, a gente tem uma necessidade de investimento teórico e prático com o bebê, com as crianças pequenas. Não só porque essa é uma área que ainda não está em expansão, enquanto a gente tem hoje, felizmente, uma expansão no atendimento à criança pequena. No caso do Rio de Janeiro, mais de 50% de todas as crianças de 4 a 6 anos já estão em pré-escolas, ou em escolas de Educação Infantil, e você tem de 7 a 10%, ou seja, centenas de milhares de crianças, que não são atendidas em creches. Falando do município do Rio de Janeiro, mas a gente está falando na realidade do contexto brasileiro. Então, o que é que falta? A gente tem pouco, tem tido pouco investimento no trabalho com o bebê, e também, conseqüentemente, essas duas coisas estão interligadas, um menor conhecimento teórico, inclusive, do trabalho direto com bebês. Nós mesmos estamos começando, temos um curso agora, que é um curso de extensão, ligado ao nosso, voltado para os bebês. Então, eu podia dizer, eu mesmo estou contrariando a minha própria resposta. Nós começamos, nesse semestre, um curso que está acontecendo no centro da cidade, pensando só a creche e o trabalho com bebês. Mas no curso, assim, no curso de especialização, a gente tem um trabalho integrado para pensar a concepção e a implementação das alternativas.
A gente estava comentando, exatamente, a preocupação do ponto de vista da formação do professor, que ele esteja se qualificando para trabalhar com a criança desde que ela nasce até 10 anos, digamos. E mais especificamente a idade de 0 a 6, compreendida na Educação Infantil. Mas, ao mesmo tempo, eu estava tentando destacar aí, a relevância com pesquisa ou com trabalho prático, considerar as especificidades das crianças, especialmente dos bebês, que é uma área em que a gente tem uma lacuna muito grande. Essa é uma área que precisa de muito investimento, e que precisa de muito estudo, de muita preparação dos profissionais.

Salto – Então, a questão da formação continuada é um desafio para os professores que trabalham com Educação Infantil?

Sonia Kramer – Eu acho que é uma pergunta fundamental, e eu vou responder pensando a realidade do nosso trabalho, do nosso município, mas pensando na realidade brasileira. Porque a gente tem especificidades. A gente tem, vou começar pela realidade brasileira, a gente tem hoje, mais de 40 mil professores, é o que se estima, que trabalham com Educação Infantil, que não têm formação em nível médio, que não têm uma formação como professores, então, conseqüentemente, no meu ponto de vista, eu acho que é fundamental que esses professores tenham, pelo mesmo, acesso à formação em nível médio. Então, acho que aí temos uma questão política, uma questão contextual, porque, e eu faço essa defesa não só para os professores de Educação Infantil, mas também para os de Ensino Fundamental, que eles possam ter uma formação no ensino superior. Um curso superior, numa universidade de preferência, essa é a minha defesa, para que possam ampliar a base da sua formação, e porque, como eu disse, foi a primeira frase que eu disse hoje aqui, porque eles têm direito. Não só para trabalharem melhor, mas também para garantirem, isso que é direito de todo cidadão, inclusive dos professores. 
Agora, em contextos como o da cidade, onde você tem quase todos os professores com o ensino superior, uma cidade como o Rio de Janeiro, a grande maioria dos professores de Educação Infantil e de Ensino Fundamental está na universidade, ou já passaram pela universidade. Esses dados existem, estão disponíveis, nas capitais, então não é, não seria, no mínimo sensato, você imaginar: por que não garantir aos profissionais também de Educação Infantil, o acesso à universidade? Pela lei, o mínimo exigido é o Ensino Médio. De direito, ao meu ver, eles deveriam ter acesso também à universidade, por conta dessa formação prévia para o seu trabalho. Por outro lado, a gente tem, com as mais diferentes denominações – você mencionou formação continuada, antigamente se falava formação permanente, eu prefiro formação em serviço – que são apenas maneiras diferentes de se referir a um profissional que está no trabalho, que está atuando, mas que, tenha ele Ensino Médio ou nível superior, ele necessita, para que vá aprimorando o seu trabalho, com os desafios que as práticas sempre nos colocam, que ele vá desenvolvendo, que vá adquirindo conhecimento, e que vá principalmente pensando a prática, pensando os problemas concretos, que não são poucos. Educação Infantil lida não só com questões teóricas, mas também com questões muito do cuidado, questões do corpo, da sexualidade, das mordidas, das fraldas, questões inclusive da relação com a família, com os pais. Então, há muitas questões que também afetam os outros níveis de ensino, claro. Mas a formação continuada, ela é uma necessidade, e ela é, hoje, uma estratégia que várias secretarias de educação têm assumido, e que várias escolas, particulares ou que atuam como organização não-governamental, também têm assumido o seu trabalho. Eu acho que a formação continuada, ela é importante até para re-inserir o professor nos conhecimentos que vão sendo descobertos, ou para garantir o trabalho coletivo, a possibilidade das trocas entre os professores, a leitura conjunta de textos, a discussão conjunta de problemas. Enfim, não sei se era essa a intenção da pergunta, mas é, assim, elas têm especificidades. A formação prévia, no Ensino Médio ou na universidade, tem especificidades. Mas a formação continuada ela é, num país como o Brasil, uma necessidade. Uma necessidade da própria prática.

Salto – Voltando para a formação em nível superior, é importante o fato de os professores cursarem uma faculdade?

Sonia Kramer – Eu queria apenas complementar que a formação continuada, ao meu ver, ela é vinculada à própria melhoria da qualidade de ensino. A melhoria da qualidade do trabalho pedagógico com a criança pequena. A formação continuada, ela tem essa ponte direta. Também, e especialmente, se a gente lembrar, e aí falando em termos de Brasil de novo, que muitas vezes, a formação não qualifica. Muitas vezes, o professor teve uma escolaridade, ele passou por um curso superior, ou ele passou por uma faculdade, enfim, de menor qualidade, e ele também vai encontrar, ou precisaria encontrar, na formação continuada, estratégias voltadas para a prática, para melhorar a qualidade de trabalho.

Salto – E a questão da formação cultural do professor no contexto da Educação Infantil?

Sonia Kramer – E aqui, eu queria acrescentar um aspecto, que na verdade ele precisaria estar permeando a minha fala desde que a gente começou a conversar, que é questão da formação cultural. Porque, quando a gente fala em formação de professores, da criança pequena, mas também de outros níveis, a gente tende a imaginar conhecimentos científicos relacionados à área de trabalho, que são importantíssimos, enfim, para o desenvolvimento da criança, teorias que lidam com a questão da afetividade, aspectos relacionados ao cuidado, como eu mencionei (...). Mas eu tenho um entendimento, e o grupo, o corpo docente com quem a gente tem trabalhado tem investido muito nessa direção. Tem o entendimento de que formar professor, seja para lidar com a criança, ou com o jovem, ou com o adulto, mas no nosso caso com a criança pequena, tem a ver com fazer a formação cultural deste próprio professor, ou seja, a gente está lidando com instrumentos teórico-práticos, como eu mencionei antes, para falar dos conhecimentos científicos que são necessários para a prática com as crianças. Mas eu queria, agora, dar um destaque para a questão da formação cultural do próprio professor. Para que ele possa atuar com essa criança, como sujeito de cultura. E eu queria dar alguns exemplos. Por exemplo: quando eu falo da criança produzindo cultura, ou do professor produzindo cultura, eu estou pensando não só na cultura que é produzida nas relações – agora, a gente está aqui, um instrumento importante como a mídia, qual a relação que esse professor tem com a mídia? Qual a relação que o professor tem com os livros? Ele lê livros, ele não lê? Então a gente tem trabalhado, tanto aqui na especialização, como nos processos de formação continuada, que a gente tem tido um imenso prazer de atuar com secretarias de educação, especialmente com a Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro, trabalhando na perspectiva do professor perceber a sua cidade, olhar para sua cidade, pensar a sua cidade, pensar a nossa cidade, com as mazelas que ela tem, com todos os problemas que ela tem, e não são poucos. Mas também pensar a história dessa cidade, o patrimônio histórico como a gente chama, e que, em geral, os professores logo pensam que a gente está falando dos museus, dos pontos turísticos... Mas é olhar para o seu bairro: o que tem de história ali? Uma casa que foi importante, uma agência do correio, quando ela começou? Um sino, como no “Narradores de Javé”, esse filme maravilhoso, que a gente gosta muito de trabalhar com os nossos professores. Quer dizer, qual é o sentido? Que sentidos têm esses significados que estão circulando ali? Então, quando eu falo trabalhar na formação cultural desse professor, é que ele também possa se ver como esse produtor de cultura. E aqui de novo, eu antes falei do desafio da escrita, o desafio da leitura. Esse professor, como a professora, como leitor(a), como leitor(a) de livros da chamada literatura infantil ou da literatura de adulto, então a gente tem trabalhado muito com essa perspectiva. E aí eu estou me referindo, tanto à formação continuada, quanto à formação regular na universidade. Sendo que, na formação continuada, a gente pode fazer isso de uma maneira mais a vontade, mais flexível.

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